Sobre os direitos deste livro
Domínio público — uso livre
Este livro é de domínio público no Brasil: o autor faleceu há mais de 70 anos e o texto pode ser copiado, distribuído e usado livremente, sem pedir permissão a ninguém.
Você pode: ler, baixar e compartilhar à vontade · citar em estudos e trabalhos, com a devida atribuição ao autor · usar como base para adaptações e traduções, sem obrigação de atribuição à edição digital.
O que pedimos: ao divulgar o texto integral, mencione o autor e o projeto Marginalia · se encontrar erros nesta edição, escreva para [email protected] · se o projeto lhe foi útil, considere uma doação: [email protected].
Marginalia é um projeto colaborativo e gratuito, mantido por voluntários que acreditam que livros sérios devem ser acessíveis a todos.
Capítulo I — Do título
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos.
Depois contou-me uma história que eu não entendi bem, mas o rapaz insistia tanto que acabei por ouvi-la toda. Era uma história de amor, de ciúme e de morte — dessas que o tempo tece e destece, sem pressa e sem piedade.
«Isto é um capítulo de memórias», disse-me ele ao terminar, «e vale por um livro inteiro.» Não vale, respondi eu; mas a conversação fê-lo lembrar o tempo em que estudávamos, e o assunto morreu aí, como morrem tantas coisas.
Capítulo II — O agregado
Chamava-se José Dias, e era agregado em nossa casa. Agregado era a palavra do tempo — meio parente, meio criado, meio amigo. Vivia conosco, comia conosco, e tinha o privilégio de entrar em todas as conversas.
José Dias gostava de superlativos: tudo era «dos mais bonitos», «dos mais finos», «dos mais raros». E era por esses superlativos que a gente media o valor das coisas e das pessoas naquela casa.
Foi ele quem me chamou de Casmurro, muitos anos depois, ao ouvir-me contar uma história que não vinha ao caso. O nome pegou, e eu acabei por aceitá-lo, como se aceita um destino.
Capítulo III — Capitu
Capitu tinha olhos de ressaca — assim os descreveu minha mãe, e a expressão ficou. Olhos grandes, escuros, que pareciam puxar a gente para dentro, como o mar puxa quem se aproxima da praia.
Moro do outro lado, era o que ela dizia quando a queríamos convencer de alguma coisa. E morava mesmo: vizinha de porta, mas de outro mundo, o mundo das suas certezas e dos seus silêncios.
Fomos crescendo juntos, e o que era brincadeira de criança tornou-se outra coisa, dessas que não têm nome nos livros mas que todo mundo conhece. O resto, como se verá, foi o que foi.