Capa de Quebranto por Andre Balaio
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Quebranto

por André Balaio

Editora Editora Patuá
Ano 2022

Sinopse

ANDRÉ BALAIO   André Balaio é escritor e roteirista. Atualmente mora no Recife. Quebranto é seu primeiro livro de contos. Este livro foi finalista do Prêmio SESC 2017 (com o título Noite Cega) e terceiro colocado no Concurso Internacional UBE - RJ 2017. O conto O lado de lá foi o vencedor do prêmio Off FLIP 2016.   ***     Conheça 1 conto do livro Quebranto, de André Balaio:   Quebranto   Lorena colocou as mãos pequenas num espaço entre as barras de ferro do portão e percebeu o trinco travado. A fechadura era um bloco cromado robusto, impossível abrir sem chave. Voltou ao carro e abriu o porta-luvas. Encontrou pente, lápis de olho, caderno de anotações, batom, tablet, escova de dentes, lapiseira, estojo de pó compacto, o segundo volume dos Irmãos Karamazov, um pacote de lenços umedecidos. Nada servia. Com a luzinha do celular achou no fundo do compartimento um grampo de cabelo. Alongou o arame fino retorcido e retirou as bolinhas plásticas das extremidades com a ponta dos dentes. Voltou ao portão e inseriu o grampo na fechadura com movimentos delicados de encaixe, clique, clique. Abriu. Seguiu pela estrada de terra que margeava o pasto até o casarão. Uma mulher branca de rosto muito fino apareceu na janela enquanto Lorena estacionava o carro. Saiu e ficou parada no alpendre. Era jovem, usava um vestido estampado abaixo dos joelhos, parecia uma foto antiga. Lorena subiu os degraus e ao se aproximar ouviu um bom dia, a senhorita deseja falar com quem? A visitante explicou que era repórter da revista Homem Rural, queria fazer uma matéria com o senhor Jorge. Ele não estava, tinha ido rapidinho à cidade mas voltaria logo. A moça de vestido démodé se apresentou: era Celeste, filha de Jorge. Perguntou como Lorena havia entrado na fazenda. A repórter contou que o portão estava apenas encostado, bastou empurrar. Formou-se um vinco na testa de Celeste. Estranho, sempre fica trancado. Pediu licença e entrou. De fora dava para ouvir a voz: Por favor, seu Argemiro, corra lá no portão, parece que tem um problema, dê uma olhada e resolva antes que meu pai chegue, imagine ele encontrando o portão aberto. Tornou a sair e pediu desculpas. Apontou para a porta. Vamos entrando? Havia um tapete de couro de boi na entrada da sala, mesa comprida de tampo escuro, cristaleira, cadeira de balanço de assento e encosto empalhados e uma TV plana de não-sei-quantas polegadas sobre um rack com micro system e home theater. A filha de Jorge pediu que sentasse e foi à cozinha pergar bolo de macaxeira e café. Enquanto comia, Lorena perguntou como era a vida na fazenda. Celeste desandou a falar do pai, homem crente e trabalhador, ficava quase todo o tempo na fazenda cuidando do gado. – E você? Como é a sua vida aqui? – Não tenho muito o que dizer de mim. Além do mais, a matéria é sobre ele, não é? – Sim, mas os leitores gostam de saber sobre a família. Catando as palavras, Celeste disse que sempre morou na fazenda com o pai, apenas com ele porque a mãe tinha morrido no parto e Jorge nunca havia casado de novo. – Ah, que pena. E como ela era? Tem fotos? – Não. Meu pai me disse que na época a gente era muito pobre, só os ricos tiravam retrato. Nem sei como era o rosto dela. Jorge era homem de hábitos simples que gostava de levar a filha toda semana para o culto na igreja Cordeiros da Fé em Garanhuns, cidade grande a cinquenta quilômetros da fazenda. Era um dos poucos lugares para onde Celeste saía. – E do que você gosta de fazer por aqui, Celeste? Tem namorado? – Nada! Vixe Maria – apareceram as covinhas do rosto e a pele branca enrubesceu. – O que você faz além de cuidar da casa? – Adoro ler, sabe? Adoro mesmo. Um trovão rebentou no quintal. Não era do céu, mas da estrada: o ronco de uma picape. Vieram pés de chumbo nos degraus. Jorge entrou na sala, parecia um general gringo, louro e risonho. Ensombreceu ao perceber Lorena e passou reto, calado. Do corredor, chamou Celeste, a voz alta, sem cuidado: a moreninha, quem é? A filha falou tão baixo que não se ouviu da sala, mas devem ter sido palavras simpáticas porque logo ele voltou com cenho desfeito e esticou a mão. – Prazer. Seja bem-vinda. Revista Homem Rural, não é? Já ouvi falar. A moça fez algumas perguntas que ele respondeu pavoneando até o fim da sala com uma mão no bolso e a outra no queixo quadrado, girando na ponta dos pés ao chegar ao fim do percurso, fechando os olhos e coçando o rosto queimado de sol, como é mesmo o seu nome? Lorena, bonito nome, Lorena. Tinha muito o que falar, contaria tudo, levaria a jovem numa volta pelas terras da fazenda, mas não agora que precisava se recolher, já era noite e estava cansado, passara o dia resolvendo assuntos importantes na cidade. – A propósito, a senhorita já se acomodou por aqui? Não? Celeste! Mandou separar o quarto com ar-condicionado e que trocassem a roupa de cama, colocassem tudo do novo e do melhor para que a moça de São Paulo conhecesse a hospitalidade nordestina. Pela manhã, encontrou Celeste preparando o café. Jorge não estava, tinha saído para visitar um compadre

Editora Editora Patuá
Ano 2022

Sinopse

ANDRÉ BALAIO   André Balaio é escritor e roteirista. Atualmente mora no Recife. Quebranto é seu primeiro livro de contos. Este livro foi finalista do Prêmio SESC 2017 (com o título Noite Cega) e terceiro colocado no Concurso Internacional UBE - RJ 2017. O conto O lado de lá foi o vencedor do prêmio Off FLIP 2016.   ***     Conheça 1 conto do livro Quebranto, de André Balaio:   Quebranto   Lorena colocou as mãos pequenas num espaço entre as barras de ferro do portão e percebeu o trinco travado. A fechadura era um bloco cromado robusto, impossível abrir sem chave. Voltou ao carro e abriu o porta-luvas. Encontrou pente, lápis de olho, caderno de anotações, batom, tablet, escova de dentes, lapiseira, estojo de pó compacto, o segundo volume dos Irmãos Karamazov, um pacote de lenços umedecidos. Nada servia. Com a luzinha do celular achou no fundo do compartimento um grampo de cabelo. Alongou o arame fino retorcido e retirou as bolinhas plásticas das extremidades com a ponta dos dentes. Voltou ao portão e inseriu o grampo na fechadura com movimentos delicados de encaixe, clique, clique. Abriu. Seguiu pela estrada de terra que margeava o pasto até o casarão. Uma mulher branca de rosto muito fino apareceu na janela enquanto Lorena estacionava o carro. Saiu e ficou parada no alpendre. Era jovem, usava um vestido estampado abaixo dos joelhos, parecia uma foto antiga. Lorena subiu os degraus e ao se aproximar ouviu um bom dia, a senhorita deseja falar com quem? A visitante explicou que era repórter da revista Homem Rural, queria fazer uma matéria com o senhor Jorge. Ele não estava, tinha ido rapidinho à cidade mas voltaria logo. A moça de vestido démodé se apresentou: era Celeste, filha de Jorge. Perguntou como Lorena havia entrado na fazenda. A repórter contou que o portão estava apenas encostado, bastou empurrar. Formou-se um vinco na testa de Celeste. Estranho, sempre fica trancado. Pediu licença e entrou. De fora dava para ouvir a voz: Por favor, seu Argemiro, corra lá no portão, parece que tem um problema, dê uma olhada e resolva antes que meu pai chegue, imagine ele encontrando o portão aberto. Tornou a sair e pediu desculpas. Apontou para a porta. Vamos entrando? Havia um tapete de couro de boi na entrada da sala, mesa comprida de tampo escuro, cristaleira, cadeira de balanço de assento e encosto empalhados e uma TV plana de não-sei-quantas polegadas sobre um rack com micro system e home theater. A filha de Jorge pediu que sentasse e foi à cozinha pergar bolo de macaxeira e café. Enquanto comia, Lorena perguntou como era a vida na fazenda. Celeste desandou a falar do pai, homem crente e trabalhador, ficava quase todo o tempo na fazenda cuidando do gado. – E você? Como é a sua vida aqui? – Não tenho muito o que dizer de mim. Além do mais, a matéria é sobre ele, não é? – Sim, mas os leitores gostam de saber sobre a família. Catando as palavras, Celeste disse que sempre morou na fazenda com o pai, apenas com ele porque a mãe tinha morrido no parto e Jorge nunca havia casado de novo. – Ah, que pena. E como ela era? Tem fotos? – Não. Meu pai me disse que na época a gente era muito pobre, só os ricos tiravam retrato. Nem sei como era o rosto dela. Jorge era homem de hábitos simples que gostava de levar a filha toda semana para o culto na igreja Cordeiros da Fé em Garanhuns, cidade grande a cinquenta quilômetros da fazenda. Era um dos poucos lugares para onde Celeste saía. – E do que você gosta de fazer por aqui, Celeste? Tem namorado? – Nada! Vixe Maria – apareceram as covinhas do rosto e a pele branca enrubesceu. – O que você faz além de cuidar da casa? – Adoro ler, sabe? Adoro mesmo. Um trovão rebentou no quintal. Não era do céu, mas da estrada: o ronco de uma picape. Vieram pés de chumbo nos degraus. Jorge entrou na sala, parecia um general gringo, louro e risonho. Ensombreceu ao perceber Lorena e passou reto, calado. Do corredor, chamou Celeste, a voz alta, sem cuidado: a moreninha, quem é? A filha falou tão baixo que não se ouviu da sala, mas devem ter sido palavras simpáticas porque logo ele voltou com cenho desfeito e esticou a mão. – Prazer. Seja bem-vinda. Revista Homem Rural, não é? Já ouvi falar. A moça fez algumas perguntas que ele respondeu pavoneando até o fim da sala com uma mão no bolso e a outra no queixo quadrado, girando na ponta dos pés ao chegar ao fim do percurso, fechando os olhos e coçando o rosto queimado de sol, como é mesmo o seu nome? Lorena, bonito nome, Lorena. Tinha muito o que falar, contaria tudo, levaria a jovem numa volta pelas terras da fazenda, mas não agora que precisava se recolher, já era noite e estava cansado, passara o dia resolvendo assuntos importantes na cidade. – A propósito, a senhorita já se acomodou por aqui? Não? Celeste! Mandou separar o quarto com ar-condicionado e que trocassem a roupa de cama, colocassem tudo do novo e do melhor para que a moça de São Paulo conhecesse a hospitalidade nordestina. Pela manhã, encontrou Celeste preparando o café. Jorge não estava, tinha saído para visitar um compadre