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Era o vento

por Carlos Machado

Editora Editora Patuá
Ano 1977

Sinopse

CARLOS MACHADO   CARLOS MACHADO nasceu em Curitiba, em 1977. É escritor, músico e professor de literatura e línguas estrangeiras. Publicou os livros A Voz do outro (contos 2004, 7Letras), Nós da província: diálogo com o carbono (contos 2005, 7Letras), Balada de uma retina sul-americana (novela 2006, 7Letras), Poeira fria (novela 2012, Arte & Letra), Passeios (contos 2016, 7Letras) e Esquina da minha rua (novela 2018, 7Letras). Tem contos e outros textos publicados em diversas revistas e jornais literários (Revista Oroboro, Revista Ficções, Revista Ideias, Revista Philos, Revista Arte e Letra, Jornal Rascunho, Jornal Cândido, Jornal RevelO etc.), participação nas antologias “48 Contos Paranaenses” (2014), organizada por Luiz Ruffato e “Curitiba Literária” (2019) com a curadoria de Rogério Pereira. Foi finalista do prêmio Off Flip de literatura (contos) 2019. Na música, lançou os CDs Tendéu (2008), Samba portátil (2010), Longe (2012), o DVD ao vivo (Teatro Guairinha) Longe e outras canções (2012), o trabalho em espanhol Los Amores de paso (2013), Bárbara (2015) e DESencontro (2017), seu trabalho mais recente.   https://www.carlosmachadooficial.com   *** Conheça um conto do livro Era o vento, de Carlos Machado:   Em nome do pai, amém.   “Deus era a palavra mais ouvida quando os objetivos pareciam dúbios, quando o soldado fraquejava, quando começava a duvidar”. (Bernardo Carvalho em Simpatia pelo Demônio)     Mirjam escolhe a pedra mais próxima para dar um passo adiante. Procura por ele. Não está fácil caminhar no deserto sem saber para qual lado ir. Talvez se eu concentrar minha força nessa direção, possa achar um jeito de sair daqui. Pensou ela. Como uma barata tonta que acabou de levar uma borrifada de veneno, tateia o pó para saber onde está. Uma pedra, outra. Joga seu corpo para o lado direito e tenta caminhar para frente, mas logo se depara com uma barricada de terra seca que a impede de continuar, então joga o corpo para trás, a fim de tentar tomar outro caminho, mas é impedida por algo que nem ao menos sabe o que é. Era o vento. Acredita ela. Simula o rosto dele por todos os lados. Não sabe ao certo se Mathias realmente está ali ou se somente pensa sobre ele. Procura tocar seu rosto para ter a certeza da realidade, mas sua mão não encontra nada além do ar carregado de poeira. As pedras que estão no chão a ajudam a tomar impulso e se virar para a esquerda. Ela consegue distanciar-se um pouco de onde estava e aproveita para sair. Simplesmente corre para não ficar parada. Chora. Suas lágrimas misturam-se com o pó do deserto e deixam seu rosto sujo de estrelas. Mirjam procura abrigo. O sol brilha mais forte do que nunca e reflete seus sonhos largados em uma esquina de sua cidade. Mas qual? Ela tem dúvidas. Está bastante desorientada e não tem certeza se ainda vive com seus pais ou se já se mudou para a nova casa, longe de todos. Sobre sua cabeça voam pássaros, e todos que estão abaixo parecem abandonados como carniça para os urubus - Eles veem tudo o que acontece no chão do deserto. E assim continua procurando abrigo. E procurando por Mathias. Ela passa sua mão sobre o rosto, impedindo que o suor caia sujo em seus olhos. Abrindo-os novamente, percebe que não está só. Tem uma sensação estranha de estar perdida entre muitas outras pessoas, como se estivesse sentindo-se abandonada sem referência de onde, nem de quando. Ela procura por um rosto conhecido para acalmar-se. Seria o Mathias aquele homem de camisa estampada? Ou então aquele outro que vem correndo com os cabelos brancos pisando sobre rochas, desviando-se dos restos de deserto? Ou ainda aquela pessoa de costas que conversa com um grupo de crianças, seria ela o Mathias? O meu Mathias. Grita ela. Desorientada. Mirjam continua passando as costas das mãos em seu rosto, pois o suor aumentou. Não sabe ao certo se já caminhou por minutos, horas ou dias, mas continua. Até se deparar com uma floresta de árvores secas, dentro das quais pôde abrigar-se, esconder-se do sol, das pessoas. Mirjam senta-se na base de uma das árvores. Ela parece esgotada de tanto correr, de tanto buscar a rua que a levaria de volta para a cidade. E para o Mathias. Com as duas mãos abertas, esconde o rosto entre as pernas, e soluça. Tal qual fazia quando seus irmãos gritavam com ela na brincadeira de infância, ou então como quando tinha que explicar aos seus pais sobre algo que havia feito de errado. Tal uma criança que se esconde colocando seu rosto molhado entre as pernas.     ***     Mathias correu para dentro de seu quarto assim que soube o que estava acontecendo. Eles invadiram a cidade. É preciso protegê-la. Atrás da última porta de madeira de seu guarda-roupa, a arma antiga usada por seu pai durante a última guerra era tida como uma espécie de relíquia histórico-pessoal e, ao mesmo tempo, uma garantia de segurança pelo que sobrou da família. Mas ele nunca pensou que, de fato, fosse necessário usá-la. Tinha repulsa, porque sabia que foi através dela que perdeu seu pai. Sem muito titubear, de frente para a arma, Mathias aciona o dispositivo que se abre para a munição. De uma hora para outra. Assim, coloca um pente de bala dentro da arma, fecha a parte superior e olha-se diante do espelho. Era como se visse seu pai chegando em casa depois de anos ausente. Era muito novo quando isso aconteceu, mas ainda se lembra de sua mãe sozinha sentada na frente da janela da sala esperando pela volta de seu marido. Todos os dias, depois de servir o café para os filhos e levá-los para escola, ela colocava-se diante dessa janela com seu tricô e via o sol nascer e morrer. Dessa forma, o tempo foi passando até o dia em que, realmente, ele retornou. Veio lentamente caminhando da mesma forma como partiu. Porém, conforme ia aproximando-se foram percebendo que esse homem havia envelhecido. Talvez a barba, talvez os cabelos brancos. Os anos de guerra. E assim, carregando essa mesma arma que agora segura Mathias em frente ao espelho de seu quarto, voltou seu pai. A sensação de tê-lo em casa fazia com que Mathias vivesse um período de muita alegria, principalmente por ver sua mãe tão contente como estava. Durou uma semana apenas. No sétimo dia de seu retorno, na beira da cama. Um tiro certeiro, apenas um e n

Editora Editora Patuá
Ano 1977

Sinopse

CARLOS MACHADO   CARLOS MACHADO nasceu em Curitiba, em 1977. É escritor, músico e professor de literatura e línguas estrangeiras. Publicou os livros A Voz do outro (contos 2004, 7Letras), Nós da província: diálogo com o carbono (contos 2005, 7Letras), Balada de uma retina sul-americana (novela 2006, 7Letras), Poeira fria (novela 2012, Arte & Letra), Passeios (contos 2016, 7Letras) e Esquina da minha rua (novela 2018, 7Letras). Tem contos e outros textos publicados em diversas revistas e jornais literários (Revista Oroboro, Revista Ficções, Revista Ideias, Revista Philos, Revista Arte e Letra, Jornal Rascunho, Jornal Cândido, Jornal RevelO etc.), participação nas antologias “48 Contos Paranaenses” (2014), organizada por Luiz Ruffato e “Curitiba Literária” (2019) com a curadoria de Rogério Pereira. Foi finalista do prêmio Off Flip de literatura (contos) 2019. Na música, lançou os CDs Tendéu (2008), Samba portátil (2010), Longe (2012), o DVD ao vivo (Teatro Guairinha) Longe e outras canções (2012), o trabalho em espanhol Los Amores de paso (2013), Bárbara (2015) e DESencontro (2017), seu trabalho mais recente.   https://www.carlosmachadooficial.com   *** Conheça um conto do livro Era o vento, de Carlos Machado:   Em nome do pai, amém.   “Deus era a palavra mais ouvida quando os objetivos pareciam dúbios, quando o soldado fraquejava, quando começava a duvidar”. (Bernardo Carvalho em Simpatia pelo Demônio)     Mirjam escolhe a pedra mais próxima para dar um passo adiante. Procura por ele. Não está fácil caminhar no deserto sem saber para qual lado ir. Talvez se eu concentrar minha força nessa direção, possa achar um jeito de sair daqui. Pensou ela. Como uma barata tonta que acabou de levar uma borrifada de veneno, tateia o pó para saber onde está. Uma pedra, outra. Joga seu corpo para o lado direito e tenta caminhar para frente, mas logo se depara com uma barricada de terra seca que a impede de continuar, então joga o corpo para trás, a fim de tentar tomar outro caminho, mas é impedida por algo que nem ao menos sabe o que é. Era o vento. Acredita ela. Simula o rosto dele por todos os lados. Não sabe ao certo se Mathias realmente está ali ou se somente pensa sobre ele. Procura tocar seu rosto para ter a certeza da realidade, mas sua mão não encontra nada além do ar carregado de poeira. As pedras que estão no chão a ajudam a tomar impulso e se virar para a esquerda. Ela consegue distanciar-se um pouco de onde estava e aproveita para sair. Simplesmente corre para não ficar parada. Chora. Suas lágrimas misturam-se com o pó do deserto e deixam seu rosto sujo de estrelas. Mirjam procura abrigo. O sol brilha mais forte do que nunca e reflete seus sonhos largados em uma esquina de sua cidade. Mas qual? Ela tem dúvidas. Está bastante desorientada e não tem certeza se ainda vive com seus pais ou se já se mudou para a nova casa, longe de todos. Sobre sua cabeça voam pássaros, e todos que estão abaixo parecem abandonados como carniça para os urubus - Eles veem tudo o que acontece no chão do deserto. E assim continua procurando abrigo. E procurando por Mathias. Ela passa sua mão sobre o rosto, impedindo que o suor caia sujo em seus olhos. Abrindo-os novamente, percebe que não está só. Tem uma sensação estranha de estar perdida entre muitas outras pessoas, como se estivesse sentindo-se abandonada sem referência de onde, nem de quando. Ela procura por um rosto conhecido para acalmar-se. Seria o Mathias aquele homem de camisa estampada? Ou então aquele outro que vem correndo com os cabelos brancos pisando sobre rochas, desviando-se dos restos de deserto? Ou ainda aquela pessoa de costas que conversa com um grupo de crianças, seria ela o Mathias? O meu Mathias. Grita ela. Desorientada. Mirjam continua passando as costas das mãos em seu rosto, pois o suor aumentou. Não sabe ao certo se já caminhou por minutos, horas ou dias, mas continua. Até se deparar com uma floresta de árvores secas, dentro das quais pôde abrigar-se, esconder-se do sol, das pessoas. Mirjam senta-se na base de uma das árvores. Ela parece esgotada de tanto correr, de tanto buscar a rua que a levaria de volta para a cidade. E para o Mathias. Com as duas mãos abertas, esconde o rosto entre as pernas, e soluça. Tal qual fazia quando seus irmãos gritavam com ela na brincadeira de infância, ou então como quando tinha que explicar aos seus pais sobre algo que havia feito de errado. Tal uma criança que se esconde colocando seu rosto molhado entre as pernas.     ***     Mathias correu para dentro de seu quarto assim que soube o que estava acontecendo. Eles invadiram a cidade. É preciso protegê-la. Atrás da última porta de madeira de seu guarda-roupa, a arma antiga usada por seu pai durante a última guerra era tida como uma espécie de relíquia histórico-pessoal e, ao mesmo tempo, uma garantia de segurança pelo que sobrou da família. Mas ele nunca pensou que, de fato, fosse necessário usá-la. Tinha repulsa, porque sabia que foi através dela que perdeu seu pai. Sem muito titubear, de frente para a arma, Mathias aciona o dispositivo que se abre para a munição. De uma hora para outra. Assim, coloca um pente de bala dentro da arma, fecha a parte superior e olha-se diante do espelho. Era como se visse seu pai chegando em casa depois de anos ausente. Era muito novo quando isso aconteceu, mas ainda se lembra de sua mãe sozinha sentada na frente da janela da sala esperando pela volta de seu marido. Todos os dias, depois de servir o café para os filhos e levá-los para escola, ela colocava-se diante dessa janela com seu tricô e via o sol nascer e morrer. Dessa forma, o tempo foi passando até o dia em que, realmente, ele retornou. Veio lentamente caminhando da mesma forma como partiu. Porém, conforme ia aproximando-se foram percebendo que esse homem havia envelhecido. Talvez a barba, talvez os cabelos brancos. Os anos de guerra. E assim, carregando essa mesma arma que agora segura Mathias em frente ao espelho de seu quarto, voltou seu pai. A sensação de tê-lo em casa fazia com que Mathias vivesse um período de muita alegria, principalmente por ver sua mãe tão contente como estava. Durou uma semana apenas. No sétimo dia de seu retorno, na beira da cama. Um tiro certeiro, apenas um e n